O que é a Não Dualidade?
Não é nada ; a não dualidade não é ; qualquer tentativa de descrevê-la a converteria em sua negação . Palavras operam como ponteiros a indicá-la cognoscível, mas as mensagens que carregam devem ressoar além da mente possibilitando-a um vislumbre de si mesma como um processo total . A perspectiva não dual não reflete pontos de vistas mas submete ao fim o perspectar ; trata-se do reconhecimento de nossa verdadeira natureza , através da observação clara daquilo o que não somos, por que somente olhando para o irreal pode-se chegar ao real .O que não somos é o que cremos ser ,e unicamente na erradicação do crer, Seremos.O acumulo das bagagens conceituais, origina na entidade psicológica como um produto do conhecimento adquirido através da utilização dos sentidos ; derivado diretamente de sua experiência sensorial, o ente imaginário é instituído , superimposto àquilo o que havia antes de sua ascensão.
O que havia antes de sua ascensão?
Nada. O que havia não pode ser descrito . A existência não é traduzível ,mas só o que existe o é .O que existe é localizável mas a existência não está em um lugar porque existe em todos os lugares o que equivale a existir em lugar nenhum ou não existir.
Como a experiência sensorial deriva no ente imaginário?
A experiência evidencia o experimentador que não é eventual , mas produzido com a finalidade de experimentar. A identidade do experimentador consubstancia a subjetividade na apresentação de um papel alusivo como parte de um jogo , onde o sujeito carrega a crença de ser uma pessoa vitimizada pelos seus episódios de drama .O curso das subsequentes sobreimposições de painéis psicoilustrados, vai alienando o indivíduo no sono de sua bolha pessoal ,e impelindo-o à margem do Ser . Os fragmentos de imagens trazidos à superfície do seu complexo cerebral, entorpecem-lhe a compreensão alterando a existência no que existe , o nada em alguma coisa ; o que existe vai ofuscar a existência que restará encoberta por densas camadas de conceitos lançados continuamente na forma de suposições a fim de submergir o ser em um quadrante polidimensional .Afundado em sua particularidade , o ente passa a comportar-se de maneira a perdurar no tempo, recorrendo ao que precede para fabricar o que sucede ; entretendo-se com o perseguir o que se quer ,e sustentar o que se tem através do esforço estéril , apoiado em premissas inconsistentes porém, como desconhece qualquer coisa extra a seu método de extração peculiar, torna a extrair .O experimentar , requer o sujeito em relação com o objeto , que só existe relacionado ao sujeito significando que a pessoa está constantemente confrontando-se apenas consigo mesma na qualidade da decodificadora dos códigos os quais ela mesma implementou , convergendo-se na tradutora da realidade autoimaginada. A necessidade de relacionar-se vem da sua compulsão em conhecer e ausente o sujeito conhecedor o que resta é conhecimento , livre das amarras limitantes da autoimposição valorativa . A formação de uma opinião própria é parte da ilusão vivenciada pelo ilusor . O ilusor é a idéia condicionada que faz de si e qualquer opinião a partir dele elaborada , revelaria-se como autoramificação, vazio de possibilidades de tocar o descondicionado .
O que o sujeito extrai exatamente?
Coisa nenhuma. Ele acredita que possui tal poder segundo o convencimento de ser o dirigente de sua formulação como pessoa , absorvendo da realidade o que julga ser-lhe devido . Na medida em que a entidade calcula manipular seu contexto de vida , este a manipula como resultado de seu próprio cálculo. Não existe uma única ação factual de sua parte e mesmo o agir técnico estaria contaminado pelos seus desdobramentos de corrupção coligando-se secundariamente à falsa identidade , e cumprindo-se a serviço de um modelo mental imaginário, ainda que o ingrediente do fazer tecnológico figure como responsável indireto a concorrer na degradação do constituído psicossomático uma vez que não irá apoiar-se em um histórico emotivo como meio de autoafirmação.
O que há de errado com seu método de ação?
Não há nada de errado com a sua ação mas na crença de que ela ocorreria separada do ator . A ação não caracteriza um fenômeno isolado .O isolamento da ação vai particioná-la em uma série de acontecimentos sequenciais entre o seu ponto inicial e final compondo um continuum, integrado em um movimento global , que abduzido da totalidade, passará a figurar como registro no cérebro. Os cortes fotográficos que integram um continuum não detém qualquer vínculo relacional inerente embora o senso mental interpretativo aceite o oposto constituindo um encadeamento de unidades narrativas. Ao extrair a sua razão de ser de seus quadros de ação , o indivíduo modula-se naquele que agiu ,reunindo informações internas de forma a reforçar cada vez mais o seu feitio moral . A persona tem origem no que se foi ,e suprimindo o que é, move-se a fim de ocupar o que será, marchando estradas já percorridas que conduzem-na repetidamente ao seu ponto de início e aqui novamente de mãos vazias , a criatura ególatra volta a ansiar por realizações sobrepondo ao Ser , espectros de retrovisões que jamais suportaram qualquer centelha de factualidade . A sua vida relativa é um artifício de isolamento, nascido da necessidade de diferenciar-se, como estratégia de incremento da autoimagem. A fim de isolar-se a criatura compara-se ao mórfico aceitando ou rejeitando-o ,como método de agregação de sentido egoísta, já que ela mesma persiste como formação .Nesse sentido , a associação material teria a finalidade de ativar o seu polo de negatividade para que o ser condicionado persista pela negação , em um viver alicerçado na constante afirmativa como partícula emancipada ;numa vida regida pelo egocentrismo na qual não existe luz para enxergar a verdade dos fatos .
A entidade poderia aprender a enxergar a verdade dos fatos ?
Não , por que a sua interpretação é distorciva e ao ser instruída , o seu mesmo aprendizado converteria-se em novo foco de distorção , como resultado da sua atividade interpretativa .Conhecer os fatos como são , não lhe é facultoso. A atividade fragmentante do pensamento particiona a realidade em pequenos núcleos que filtrados pelo prisma da mente ,projetam uma exterioridade aparente .Tal projeção errônea de um paradigma externo é consequente da necessidade que o ente imaginário tem de contrastar-se com um eixo a fim de autoimplicar-se; esse é o seu fundamento de subsistência . Autoimplicado, ele firma localização vivificando o seu personagem ,o qual passa a direcionar-se a núcleos específicos fundado em uma narrativa mental incessante que o conduzirá novamente a um outro ponto, e esse modelo não pode ser interrompido.
Por que esse modelo não pode ser interrompido?
Por que o ente jamais encontra saciedade .Ele carrega um incerto sentimento de insuficiência e a partir dessa perspectiva , esforça-se em estabelecer plenitude , perseguindo elementos de complementação. A sede de adquirir surgida a partir de suas reclamações não pode ser saciada por que a escassez não é real. As suas exigências de falta vão traçar um roteiro na forma de um destino íntimo atirando-o ao longe em uma tarefa que é a de produzir preenchimento mas , como a lacuna não está lá , a atividade é reincidente , resultando no impulso contínuo ao momento seguinte ,e na criação perpétua de um amanhã ilusório .
A Não-Dualidade surgiria como promessa de felicidade ao conciliar os fatores que promovem a separação entre a entidade e a realidade aparente?
Tanto a separação quanto a realidade objetiva externalizada são irreais . Ambos funcionam enquanto ficções arquitetadas para dar vida ao corpo .Não há nada surgindo fora ; o corpo , e a externalidade onde as dinâmicas de movimentação ocorrem , são processados na mente que põe-se a descrever o que percebe ,associando a sua percepção imediata às gravuras do passado . O deslocamento do corpo , faz surgir o corpo deslocante , mas este não verifica-se sem aquele ; os dois são mutuamente dependentes e onde há dependência lá estará a divagação do pensamento .O ente é um estado de suspensão provisória da supraconsciência abrangente e só pode resistir , se estiver associado a algo diferente de sua particularidade idiossincrásica , comparando-se objetivamente e permanecendo presa à infraconsciência. O não dualismo independe de fatores extrínsecos e não está interessado em negar o corpo mas na sua acepção como um arquétipo construído com a finalidade de motivar-se num sonho atrás dos objetos de realização . O alvo da não dualidade não é o contentamento , mas a clara compreensão de que fazer-se contente é inexequível . A entidade imaginária é inabilitada a produzir felicidade, a felicidade e a entidade são antagônicos, a felicidade demanda a descensão da entidade e quando a entidade descende, o júbilo consequente que se manifesta em seu lugar nada tem a ver com a alegria passageira do furor mundano .
Em que consiste a descensão da entidade ?
No momento em que o ente fragmentário é enfim percebido como um fragmento objectual, ele desloca-se deixando de ser o centro , posicionando-se à frente da observação . O observador é agora o espaço vazio cuja observação anterior à subjetividade, vai gerar o colapso da paralelidade sujeito-objeto, produzindo retração, e expondo-a como uma aparição na periferia de um senso de consciência amplificado . Essa mudança de foco promove a desidentificação do ego que passa a mover-se externamente incorporado a um fluxo global . A ruptura da falsa referência ego-mente põe fim à conexão de causalidade subjetiva ,fazendo a existência especifica transmudar-se em apessoal , encerrando a identidade com o sólido modelo corpo-mental .Nesse ponto, o nexo das subsequentes relações de causa e efeito cai por terra quando o que É não está mais vinculado como resultado do que aconteceu , mas Sendo de forma acausal. O rompimento do elo da falsa estrutura não dilui o ente , ele continua lá , o seu condicionamento permanece seguindo sua direção , mas cessou de gerar influência por que o laço de submissão foi rompido.
Por que a felicidade não pode ser buscada ?
Por que não habita fixa . Ao que a entidade denomina felicidade ,representa um local estável no tempo mutável, como mais uma expressão de sua contradição. Qualquer forma de estabilidade se revelaria utópica pois todos os fatores mutabilizam-se no tempo .A única coisa permanente , é a constante mudança de tudo; o único modelo estável, é a instabilidade contínua de todas as coisas .Nada precisa ser estático, quando sobrevém o entendimento de que tudo é completamente caótico e essa compreensão surge no instante em que a obssessão em entender é descontinuada. Nada carece de entendimento pois todos os fatores são neutros, livres de significados contrariamente ao cérebro que simboliza um padrão analítico , consequente de sua própria compulsão em saber , porém , a entidade não é capaz de ir além de sua atividade compulsiva. A mente é abrangida pela esfera da instrução científica e cada impulsão direcionando-a fora de seu perímetro circunscritivo, é balizada pelo seu mesmo limite circunscritor . Não há como cruzar essa demarcação já que o próprio comando de transpassá-la , é restrito ao seu raio de alcance . Em outras palavras , seria infactível abandonar a direção, na qualidade do diretor pois a sua observância , é dirigir.O diretor não é qualificado a observar além de sua capacidade diretiva dado que isto implicaria a renúncia do diretor.
A entidade está presa a sua própria estrutura ?
Sim, ela inconcebe algo alheio a sua ordenação científica. A sua ordem sensciente não é apta a investigar a si por estar nela própria completamente absorta e qualquer tentativa autoinvestigativa de sua parte , resultaria em novo movimento de retorno ao seu começo ,implicando redundância ,sem qualquer chance de abster-se desse ciclo arbitrariamente . O ser separado acredita que o universo está em translação em relação ao ser , mas de fato, o ser está rotando em torno de seu próprio vértice propulsado por reincidentes especulações autoafirmativas como o âmago do universo.Na verdade o ser precisa estabelecer o seu centro para provocar um mundo que lhe submeta a ameaça constante o ratificando como vítima direta já que o vitimismo lhe traz grande significado de autocomiseração .A função primordial de sua sapiência é supor possibilidades de fuga , profetizando cenários de satisfação , e isolando o sofrimento pela superposição de ideais de êxito desenhados no que há de vir .A entidade é empurrada pelo desejo, e fascina-se com os sonhos românticos da mente que são como fenômenos de delírio a sustentar os seus particulares planos de obtenção . Ela quer obter para si,como forma de preservação da sua continuidade e para tal ,parte do princípio de que as crenças limitantes do pensamento ostentam o material necessário a fim de efetuar a sua empreitada , situação que não se confirma pois o antevisto jamais se verifica ao atingimento de seu ponto de gratificação dado que este era a sua antevisão supraimaginada ao verificável .A supraimaginação ao verificável de sua antevisão , guiará a entidade em uma viagem rumo a sua própria anulação, através do esboço contínuo de um momento posterior para que lá , a sua alteração seja efetuada. Tal lugar é inatingível por que inexiste .
Isso significa que para a entidade , não há esperanças ?
Exato. É uma busca completamente desesperançosa por que o futuro é uma abstração e não pode haver um próximo momento quando tudo entrará nos eixos , ou no qual a entidade irá finalmente completar-se ; ela vive em um mundo de significados e propósitos , acreditando que a sua vida tem um sentido e sob tal ótica , direciona-se. Porém,o seu próprio caminho é um componente obstrutivo ,e através da sua busca nada pode ser desvendado , nenhum véu pode ser removido por que o agente buscador é velado pela sua mesma intenção de buscar .Toda a sua intervenção é falha , ela já nasce fadada ao fracasso ,como uma conduta intencionada, a subjugar o meio em honra de um fim premeditado ,que jamais está onde deveria estar . Não há resolução que decida o ente egocentrado ; nenhum elemento pode terminar com o seu sofrimento. A personalização egoica fictícia mantém-se prisioneira dos resultados de seus atos , projetando-se através da ação cujo desfecho tem o único intento de justificar o agente de ação.É uma forma de viver fundada na contínua afirmativa como sendo o centro , uma vida de tristeza, pavor, e contração.
Isso é deprimente . Qual seria a real utilidade de constatar tudo isso se não há solução?
Sob o ponto de vista do ente separado isso pode soar aterrador mas tal retrato nada mais é do que a sua própria descrição, é a oportunidade dele conhecer-se como o que de fato não é para assim mover-se ao que É .A entidade está inconsciente, e presume ser capaz de produzir os seus pensamentos mas são estes que a produzem . Ela crê que pensa e ao crer, é pensada. É necessário e urgente compreender esse sistema contraintelectivo para que seja notado em sua inteireza , não pela mente mas a começar de um ponto anterior ao pensamento. Tal visão não pretende apagar a contrariedade desse sistema , mas a sua demonstração como parte de uma performance holística inclusiva, e quando assim for admitido, deixa de ser a parte se revelando no todo.
E qual tipo de prática a não dualidade propõe?
Nenhuma . Ela é o fim de toda prática. Não se trata de acrescentar, mas de entender a invalidade de todo acréscimo. Nada é necessário ,tudo já É ,e o que É , é a única coisa que existe, e é todo abrangente. O que É , não é praticável, conhecível ou manipulável , é sem lugar ou perspectiva. A falsa experiência da realidade divide o que É em uma multiplicidade de peças apartadas, revelando seu aspecto dual , explicitando a falácia na qual a humanidade fundou o seu princípio norteador , e por estar em sua própria criação principiada,vai negligenciar o incriado. A dualidade é precipitada a fim de que a entidade desenvolva certo senso de preferência , apoiada na convicção infundada de que possui capacidade de escolha.Ela ignora que porta um falso livre arbítrio e que a sua seleção já seria premeditada pelo seletor .O seletor é arrogante e emerge no instante em que seleciona , como forma de autojustificar-se e por meio da autojustificação negligenciar o que É confirmando o seu egocentrismo .A negação do que É faz o seletor expandir-se cronologicamente, isentando-se do momento presente e impulsionando-se a sua próxima opção. Todo o seu esforço de vir a ser, visa o seu próprio reencontro , no entanto ele nunca perdeu-se, esse é o seu dilema.
Como alguém pode saber que está vivendo sob a perspectiva não dualista?
Não há como saber. No momento em que alguém quer saber ,isso é não saber. O saber não está disponível para a examinação particularizada em um ponto focal. A metodologia analítica é excludente e onde há exclusão fica anulada a união. Sabedoria é ausência do saber , o esvaziamento de todo conteúdo mental desnecessário , concentrado na infraestrutura basal da falsa simulação autoidentificada .A falsa simulação almeja trazer para si um lugar, ação que reverteria em movimento inerte ao respaldar-se no motivo como fator de atração.
Movimento inerte não é em si uma sentença contraditória?
Não. Olhe ao redor, todo o esforço empenhado no fazer, as esperanças vãs depositadas em promessas ideadas que jamais se manifestaram como realização .Esse é o agir inerte, a ação que jamais se efetiva .
Alguma coisa poderia suceder-se isento o movimento motivado? Toda a nossa cultura está fundada há milênios , na ação.
Nada acontece impelido por motivo , exceto aparentemente. Movimento motivado significa ilusão.Movimento imotivado implica ausência de intencionalidade sendo a intenção o motor condicionante do agir ,e funcionando a direcioná-lo ao seu fulcro de gratificação .O adualístico jamais surge como forma de compensação ,uma vez que revela-se quando todas as possibilidades de recompensa falharam .Nesse sentido , é imprescindível abdicar-se de sonhos através da renúncia , não tentando resisti-los mas percebendo-os como um efeito da vontade , e só essa percepção promoverá a invalidade do estado mental-projetado ao expô-lo como perspecção , e tal exposição jamais poderia ser promovida intencionalmente , como uma ação de sua parte senão que qualquer movimento de seu fazer já estaria infectado por sua prepotência , rejeitando qualquer coisa orbitante fora de seu centro de estabilidade gravitacional.
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